O Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio: Um Território Tradicional em Luta
No sudoeste da Bahia, a cerca de 50 quilômetros de Vitória da Conquista, está localizado o Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio, um território tradicional que abriga uma comunidade quilombola com uma rica ancestralidade. Nesse local, a preservação de sementes crioulas livres de transgênicos e de agrotóxicos tornou-se uma linha de frente na luta contra o cerco da monocultura, o limbo fundiário causado pela lenta demarcação de terras e as mudanças no regime de chuvas.
Os Saberes de um Quilombo em Sementes
O sustento dessa comunidade está guardado em pequenos grãos de milho e feijão puros, que fazem parte de um banco de sementes gerido de forma comunitária. O manuseio desses grãos não é uma prática agrícola recente, mas sim um legado passado adiante de avós para seus filhos e netos. Com o tempo, foi possível encontrar novos caminhos, e a tarefa de preservar essas sementes acabou nas mãos de Tiago França da Silva, 34 anos, líder do quilombo baiano.
A Casa de Sementes: Um Espaço de Resistência
Em 2017, nasceu a Casa de Sementes, um espaço onde Tiago passou a atuar como um guardião dos grãos, liderando uma comissão organizadora que selecionava e avaliava as sementes. Posteriormente, por seu trabalho, foi escolhido pela comunidade para ser a liderança geral do quilombo. A Casa de Sementes é mais do que um local de armazenamento de sementes; é um símbolo de resistência e luta pela preservação da ancestralidade quilombola.
Por que Isso Importa: Os Riscos e as Consequências
A perda dessas sementes crioulas não apenas representa a perda de uma ancestralidade, mas também tem implicações significativas para a biodiversidade e a segurança alimentar da comunidade. A contaminação por transgênicos e agrotóxicos pode levar à perda da pureza dessas sementes, tornando-as inutilizáveis para a comunidade. Além disso, a proximidade do quilombo às grandes fazendas de gado e ao monocultivo de eucalipto pressiona os limites do território ancestral, ameaçando a sobrevivência da comunidade.
O Mecanismo por trás da Preservação de Sementes
A preservação de sementes é um processo complexo que envolve a seleção, a avaliação e o armazenamento desses grãos. A comunidade quilombola desenvolveu um sistema de banco de sementes que permite a troca e a multiplicação dessas sementes, garantindo a sua disponibilidade para as gerações futuras. Além disso, a comunidade também desenvolveu práticas agrícolas sustentáveis que minimizam o impacto ambiental e maximizam a produtividade.
Contexto Mais Amplo: A Luta dos Quilombos pela Preservação de sua Ancestralidade
A luta do Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio não é isolada. Em todo o Brasil, comunidades quilombolas enfrentam desafios semelhantes na preservação de sua ancestralidade. A demarcação de terras, a proteção ambiental e a preservação da biodiversidade são apenas alguns dos desafios que essas comunidades enfrentam. A preservação de sementes crioulas é um exemplo de como essas comunidades estão lutando para manter viva sua ancestralidade e garantir a sua sobrevivência.
O Que Vem a Seguir: Desafios e Oportunidades
O futuro da preservação de sementes crioulas no Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio é incerto. A comunidade enfrenta desafios significativos, incluindo a contaminação por transgênicos e agrotóxicos, a pressão territorial e a falta de recursos. No entanto, a comunidade também tem oportunidades para avançar, incluindo a parceria com organizações ambientais e a capacitação de seus membros. A preservação de sementes crioulas é um exemplo de como as comunidades quilombolas podem trabalhar juntas para proteger sua ancestralidade e garantir a sua sobrevivência.
Conclusão: A Importância da Preservação de Sementes Crioulas
A preservação de sementes crioulas é fundamental para a sobrevivência das comunidades quilombolas. Essas sementes não apenas representam a ancestralidade dessas comunidades, mas também são essenciais para a biodiversidade e a segurança alimentar. A luta do Quilombo Lagoa de Melquíades e Amâncio é um exemplo de como as comunidades quilombolas estão trabalhando para preservar sua ancestralidade e garantir a sua sobrevivência.
Fonte / Referência
Artigo original publicado em Mongabay Brasil