O Conhecimento Medicinal de Dona Marta
Em uma terra marcada pelo desmatamento e pela perda de biodiversidade, a história de Dona Marta, uma anciã indígena do povo Kariri-Sapuyá, é um testemunho vivo do conhecimento medicinal tradicional que corre o risco de se perder. Com 87 anos, Dona Marta compartilhou com a Mongabay seu conhecimento sobre as plantas medicinais que cresciam na floresta nativa ao redor de sua casa, na Terra Indígena Caramuru/Paraguassu, no sul da Bahia.
Olhando para as montanhas secas e desmatadas, Dona Marta recordou-se de quando a área era uma floresta nativa, onde seu povo tirava os remédios para tratar doenças. Ao lado dela, uma grandiosa árvore embaúba (Cecropia pachystachya) era um exemplo vivo do conhecimento medicinal tradicional, usada para tratar diabetes e problemas de próstata.
A Perda da Biodiversidade e do Conhecimento Tradicional
A história de Dona Marta também é uma história de perda. Com a derrubada das florestas para dar lugar a pastagens de gado, muitas espécies nativas desapareceram, levando consigo o conhecimento medicinal tradicional. A puaia, uma planta usada para tratar dor de barriga, cansaço, picadas de cobra e outras enfermidades, é um exemplo de como o desmatamento pode levar à perda de conhecimento medicinal valioso.
A perda de Dona Marta em 27 de dezembro de 2025 foi um golpe para a comunidade, mas seu conhecimento está vivo em um artigo publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, que a citou como uma das fontes de conhecimento medicinal tradicional.
O Mecanismo por trás da Perda de Conhecimento Medicinal
A perda de conhecimento medicinal tradicional está diretamente relacionada à perda de biodiversidade. Quando as florestas são derrubadas, as plantas medicinais que nelas crescem desaparecem, levando consigo o conhecimento sobre como elas são usadas para tratar doenças. Além disso, a perda de biodiversidade também afeta a capacidade das comunidades de se adaptar às mudanças climáticas e de manter sua saúde e bem-estar.
O desmatamento é um dos principais drivers da perda de biodiversidade, e a expansão da agricultura e da pecuária são as principais causas do desmatamento. A conversão de florestas em pastagens de gado é um exemplo de como a atividade humana pode levar à perda de biodiversidade e de conhecimento medicinal tradicional.
Contexto Mais Amplo
A perda de conhecimento medicinal tradicional não é um problema exclusivo da comunidade Kariri-Sapuyá. Em todo o mundo, as comunidades indígenas estão enfrentando a perda de biodiversidade e de conhecimento medicinal tradicional devido ao desmatamento, à expansão da agricultura e à mudança climática.
A Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) é um exemplo de como a comunidade internacional está trabalhando para proteger a biodiversidade e o conhecimento medicinal tradicional. A CDB estabelece metas para a conservação da biodiversidade e para a proteção do conhecimento medicinal tradicional, e muitos países estão trabalhando para implementar essas metas.
O que acontece em seguida
A perda de Dona Marta é um lembrete de que o conhecimento medicinal tradicional está em risco de se perder. No entanto, a publicação do artigo no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine é um exemplo de como o conhecimento medicinal tradicional pode ser preservado e compartilhado com a comunidade científica e com o mundo.
É fundamental que as comunidades indígenas sejam apoiadas em seus esforços para proteger a biodiversidade e o conhecimento medicinal tradicional. Isso pode incluir a criação de programas de conservação da biodiversidade, a proteção de terras indígenas e a promoção do conhecimento medicinal tradicional.
Fonte / Referência
Este artigo foi originalmente publicado na Mongabay Brasil, em https://brasil.mongabay.com/2026/08/como-o-primeiro-etnobotanico-indigena-e-anciaos-registraram-o-conhecimento-medicinal-de-seu-povo-na-bahia/